O extraordinário virou obrigação
Uma fotografia registra segundos. Mas nosso cérebro pode recebê-la como se estivesse diante de uma realidade permanente.
Aquela pessoa não está necessariamente vivendo todos os dias em um cenário paradisíaco. Ela apenas fotografou o dia em que estava.
Aquela casa não permanece impecável 24 horas por dia. Aquela família não passa todos os dias sorrindo. Aquele relacionamento não é composto apenas por jantares românticos, viagens e declarações. Aquela mulher não acorda todas as manhãs com a aparência daquela fotografia.
E aquele homem que parece ter a vida completamente resolvida provavelmente também enfrenta dúvidas, frustrações, perdas, inseguranças e dias em que nada dá certo. Só que essas partes dificilmente entram no enquadramento.
A câmera escolhe o que mostrar. A vida não.
Talvez o problema esteja justamente nessa diferença. Estamos olhando para fotografias e comparando com uma vida inteira.
E, quando fazemos isso repetidamente, o extraordinário começa a parecer normal. Uma viagem deixa de ser uma experiência especial e passa a ser aquilo que deveríamos estar fazendo. Uma casa bonita deixa de ser uma conquista e passa a ser o padrão. Um corpo fotografado em uma determinada luz e posição passa a parecer um corpo que deveríamos ter todos os dias.
Pouco a pouco, aquilo que era extraordinário se transforma em obrigação. E a nossa vida comum começa a parecer insuficiente.
continua...
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