A vida que não aparece no feed
Quando as redes sociais transformam recortes extraordinários em uma régua cruel para medir uma vida que, na verdade, é feita de dias comuns.
Há uma coisa curiosa acontecendo diante dos nossos olhos: nunca tivemos tanto acesso à vida dos outros e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenhamos tido tanta dificuldade de enxergar a beleza da nossa própria vida.
Abrimos o celular pela manhã e encontramos casas impecáveis, corpos cuidadosamente fotografados, viagens extraordinárias, mesas perfeitamente postas, famílias sorrindo, relacionamentos aparentemente inabaláveis, carreiras em ascensão, comemorações, restaurantes, praias, hotéis, presentes, conquistas. É uma sucessão de momentos extraordinários.
E, depois de alguns minutos percorrendo essa vitrine, olhamos para a nossa própria realidade: a louça na pia, a cama desarrumada, a roupa esperando para ser guardada, o trânsito, o boleto, o trabalho acumulado, o almoço simples, o cabelo que hoje não ficou bom, o cansaço, uma conversa difícil, uma segunda-feira absolutamente comum.
E alguma coisa dentro de nós sussurra: “Minha vida não é tão boa assim.”
Talvez esse seja um dos efeitos mais silenciosos da comparação nas redes sociais. Não porque tudo aquilo que aparece seja necessariamente falso. Muitas vezes é verdadeiro. A viagem aconteceu. A casa é bonita. O corpo existe. O jantar foi maravilhoso. O casal estava feliz naquela noite.
O problema está em outra coisa: confundimos um recorte da vida de alguém com a vida inteira dessa pessoa...
continua...
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